O crédito às empresas mudou de balcão
O estoque de títulos de dívida emitidos por empresas ultrapassou o saldo de empréstimos bancários a empresas. Esta página mede quando isso aconteceu, em que velocidade, e por que a magnitude do fenômeno depende de onde se traça o perímetro.
O estoque hoje
Empréstimos e financiamentos do SFN a empresas
R$ 2,4 tri
Títulos de dívida emitidos por empresas
R$ 2,6 tri
Participação do mercado de capitais no crédito às empresas
52,8%
Denominador: soma dos dois canais domésticos.
Variação dessa participação em 12 meses
+2,1 p.p.
Os dois canais
Crédito bancário e mercado de capitais, em R$
Em agosto de 2026, o mercado de capitais (R$ 2,6 tri) supera o crédito bancário (R$ 2,4 tri), diferença de R$ 283,3 bi. As duas curvas se cruzaram em maio de 2025.
Participação relativa dos dois canais
Sob o perímetro dos dois canais domésticos, o mercado de capitais responde por 52,8% do financiamento às empresas em agosto de 2026, +2,1 p.p. em doze meses. Medido contra o crédito ampliado, o mesmo fenômeno aparece como 36,2%: a magnitude depende do perímetro, a direção não.
Variação em 12 meses, canal a canal
Nos doze meses até agosto de 2026, o mercado de capitais cresceu +16,2% e o crédito bancário +7,0% — uma diferença de +9,2 p.p. a favor do mercado de capitais, que é o motor da mudança de participação.
A mesma pergunta sob dois perímetros
Em agosto de 2026, o mesmo fenômeno mede 52,8% sob os dois canais domésticos e 36,2% sob o crédito ampliado — uma distância de +16,7 p.p.. As duas linhas sobem juntas: a escolha do perímetro muda a magnitude, não a direção.
Como ler isso
Os mecanismos da desintermediação
A migração não é preferência estética do tesoureiro. Ela responde a preços relativos. O balanço bancário carrega custo regulatório — capital exigido por Basileia, compulsório sobre depósitos, provisionamento — que o mercado de capitais não carrega da mesma forma. Esse custo aparece no spread cobrado da empresa, medido na página Custo do Crédito.
Do lado da demanda pelo papel, a isenção tributária de instrumentos incentivados (debêntures de infraestrutura, CRI, CRA) baixa a taxa que o emissor precisa pagar para atrair o investidor pessoa física. E o crescimento dos fundos de crédito privado criou um comprador natural para o papel corporativo que não existia com essa profundidade há dez anos.
O ciclo de juros modula tudo isso: Selic alta encarece o crédito bancário e, ao mesmo tempo, torna o papel indexado ao CDI atraente para o investidor — os dois efeitos empurram na mesma direção.
A fronteira entre os canais é porosa
O painel mede dois canais como se fossem separados, mas eles se tocam. Um FIDC que compra recebíveis originados por um banco aparece no mercado de capitais, embora o crédito tenha nascido na agência. A cessão com transferência substancial de riscos baixa o ativo do balanço do cedente (Res. 3.533/CMN), então não há dupla contagem — mas há uma reclassificação que o número, sozinho, não conta.
Por isso a página FIDCs trata os fundos por decomposição, e não como parcela somada: os direitos creditórios das carteiras já estão dentro do agregado oficial do BCB, na parcela “securitizados”. Somá-los por fora seria contar duas vezes.
Nota metodológica — os dois perímetros
O perímetro principal compara os dois canais domésticos: participação = 28851 ÷ (28851 + 28848). É o mais restrito e o mais nítido — os dois lados vêm da mesma nota metodológica do BCB, no mesmo mês de referência, e a soma é um total interpretável (“o financiamento doméstico às empresas”).
O perímetro do crédito ampliado usa 28851 ÷ 28846. O denominador é maior porque inclui dívida externa, empréstimos de outras sociedades financeiras e fundos governamentais. A participação cai, mas a inclinação da curva permanece — é isso que a sobreposição do quarto gráfico mostra. A divergência entre as duas linhas é a medida de quanto do financiamento às empresas escapa dos dois canais domésticos.
Ficam fora do denominador principal: dívida externa, fundos governamentais e outras sociedades financeiras. Todos os valores são correntes, sem deflacionamento — comparações de dez anos carregam inflação embutida.